Capitão Jelcy: parte da história do Caparaó e do Brasil é levada pelo coronavírus

Caminhões, tanques e homens do exército quebram o silêncio da cidade pequena. Os moradores observam o cortejo em verde oliva. O menino de sete anos pergunta: “o que está acontecendo?”. A resposta do garoto viria quase três décadas depois, por meio de conversas com os homens que formaram a Guerrilha do Caparaó, entre eles, o capitão Jelcy Rodrigues Corrêa, morto na última sexta-feira (26), vencido pela Covid-19 aos 87 anos.

Jelcy entrou no Exército em 1951 e fez parte da guarda presidencial de Getúlio Vargas. Estava no Palácio do Catete, a serviço, no dia 24 de agosto de 1954, quando o então presidente da República escreveu seu destino em uma carta-testamento: “saio da vida para entrar na história”.

O subtenente mais jovem das Forças Armadas foi cassado durante a ditadura militar, em 1964, por se envolver na defesa dos direitos sociais e ser contra a implantação do Estado de sítio. Ele só virou capitão após a reabertura política, com a anistia. Outros 7,5 mil militares também foram expulsos de suas funções pelo regime.

“Jelcy fez parte do primeiro movimento de resistência armada no Brasil, por meio da organização de Brizola, que já estava no exílio. No Caparaó, eram 20 homens no início, dez no final. Apenas um deles era civil. Vamos pensar com a cabeça de 1960. Só assim podemos apreciar a história. Naquele período havia a guerra fria, o mundo bipolarizado, o capitalismo contra o comunismo. E havia, entre os jovens da época, a visão heroica de Fidel Castro chegando a Cuba com poucos homens, na tomada de Sierra Maestra. Foi nesse clima que os guerrilheiros chegaram ao Caparaó para fazer dali um foco da resistência”, conta o jornalista capixaba José Caldas da Costa, no livro Caparaó: a primeira guerrilha contra a ditadura, lançado pela Editora Boitempo, em 2007, com prefácio do também jornalista e escritor Carlos Heitor Cony.

Foto: divulgação

A obra de Caldas, que resgatou uma parte então esquecida da história do Brasil, conquistou o Prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos de 2007 e foi uma das finalistas do Prêmio Jabuti no mesmo ano, na categoria livro-reportagem. Antes de escritor premiado, Caldas foi o menino de sete anos que fez a pergunta crucial: “o que está acontecendo?”. Ele foi atrás de respostas. Foram dez anos para o material ficar pronto, e a história oral de Jelcy e de outros guerrilheiros foi a base do livro.

No Caparaó, o financiamento do grupo, que diziam vir do próprio Fidel, foi ficando escasso. As compras, com o pouco dinheiro que surgia, eram feitas, na maioria das vezes, nas cidades mineiras, como Manhumirim, por conta do acesso mais fácil. “Mas eles faziam compras em Santa Marta, localidade que pertencia a Alegre e depois foi pra Ibitirama, na emancipação. Eram abastecidos também por um armazém montado pelo grupo de apoio em Guaçuí, cuidado pelo patriarca dos Dornellas, o seu Afonso”.

Entre fome, frio e doenças (muitos adoeceram pela peste bulbônica), as histórias da sobrevivência na mata fechada mostram a força física e mental dos guerrilheiros. Caldas conta que Jelcy, um gaúcho alto, forte e boa gente, certa vez, foi para Manhumirim fazer algumas compras para o grupo. “Chegou lá, fez as compras, colocou na mula e subiu a serra. Quando ele descarregou a mula, ela teve um choque térmico e morreu. Todos ficaram muito tristes, já que ela era chamada de ‘mula guerrilheira’. Passada a tristeza, o Jelcy falava que era mais forte do que uma mula, já que conseguiu sobreviver”.

O ar divertido, que só o véu do tempo consegue dar às histórias, torna-se uma triste nostalgia quando Caldas fala do amigo que se foi. O capitão foi detido em 27 de março e o restante do grupo, em 1º de abril. Venceram também a prisão.

“Ele conseguiu enfrentar a ditadura, mas não sobreviveu à Covid. Ele era um homem muito forte, apesar da idade avançada. Sempre tinha dores pelo corpo, segundo a filha, até pelas penúrias da juventude. Em maio, começou a sentir essas dores com mais frequência, fez um teste, que deu negativo. Quando o levaram ao hospital, em 29 de maio, foi direto para a UTI e faleceu no dia 26 de junho. Passou o aniversário dele, em 10 de junho, inconsciente”, conta, com tristeza, o amigo.

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