Jogo Político: Cláudio Castro acerta salário de R$ 38 mil com o PL e abre escritório de advocacia
Newsletter semanal do jornalista Thiago Prado aborda situação do ex-governador do Rio após ser alvo de duas operações da PF num intervalo de 11 dias; e recomenda o brilhante documentário com os bastidores dos Raimundos
A devassa na vida patrimonial de Castro pela Polícia Federal (PF) está se debruçando em cinco celulares recolhidos no espaço de 11 dias em dois endereços distintos. No dia 15, quando chegou no condomínio Península, na Barra da Tijuca, a ordem de busca e apreensão dada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), na investigação sobre a Refit, do empresário Ricardo Magro, só tinha como alvo o endereço no 12º andar de um prédio.
Foi graças a um porteiro que a PF soube que Castro estava morando, na verdade, em uma cobertura no mesmo edifício no nome da J3 Real Estate, do ex-secretário estadual de Transformação Digital, o advogado Mauro Farias. Neste dia, foram apreendidos um iPad, um computador e três celulares — um com cerca de 2 mil contatos de Castro, outro usado pelo ex-governador para jogos eletrônicos e um terceiro antigo, mas já dos tempos em que passou a comandar o estado.
No último dia 26, nas buscas autorizadas pelo ministro André Mendonça, do STF, na investigação sobre o Banco Master, a PF encontrou mais dois celulares na cobertura — um adquirido recentemente, e outro do período em que ocupou o posto de vice-governador do ex-juiz Wilson Witzel.
Um endereço de Castro ainda não visitado pela PF está em uma sala comercial na Rua da Assembleia, no Centro do Rio. O local acaba de ser colocado como sede da Cláudio Castro Sociedade Individual de Advocacia, um CNPJ que o ex-governador pretende usar para atuar em causas cíveis agora que deixou a política. Até o momento, nenhuma nota fiscal de serviço prestado foi emitida pelo escritório.
Embora apareça nas investigações da PF participando de degustações de uísque milionárias e voando em jatinhos privados, a defesa de Castro vai focar em apresentar quatro despesas principais do ex-governador e sua esposa, a publicitária Analine Castro: R$ 10 mil de aluguel na cobertura do seu ex-secretário; R$ 5 mil do condomínio Península; R$ 6 mil pela sala comercial no Centro do Rio para advogar; e R$ 7 mil da mensalidade escolar de dois filhos em um colégio na Barra da Tijuca.
Castro fez outros dois movimentos recentes para se capitalizar. Vendeu o apartamento no Itanhangá que aparecia na sua declaração de bens ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em 2022 por R$ 150 mil. E trabalhou para o governo do estado reconhecer que tinha direito a receber R$ 142 mil por férias não tiradas durante o período em que comandou o governo (2020-2026).
Neste momento, o ex-governador ainda não entregou as chaves do imóvel no 12º andar, mas já praticamente concluiu a mudança para a cobertura do seu ex-secretário. Comprado em abril de 2023 por R$ 3,5 milhões por uma empresa que o ex-secretário abriu dois meses antes, o imóvel ficou esse período sem ser ocupado. No último ano, passou por uma reforma que chamou a atenção de vizinhos, só concluída semanas antes de Castro passar a ocupá-lo.
Recomendo
- “Andar na Pedra – A História do Raimundos”
“Banda é igual casamento, só que sem sexo”. A frase da viúva de Canisso, que formou o Raimundos com Rodolfo, Digão e Fred, define o espírito do brilhante documentário em cinco episódios disponível no Globoplay. Os quatro se amaram, se odiaram, produziram, brigaram e entraram para a história. Ganhou nota 10 na crítica do Globo, muito, muito justo.
Raimundos, Planet Hemp, O Rappa, Charlie Brown Jr… Tudo isso foi a minha adolescência nos anos 90. Tive muitas revelações musicais com a produção. Foi interessante descobrir o bastidor do incômodo da banda com o Mamonas Assassinas e que “Lapadas do Povo”, o disco que tem “Andar na Pedra” como carro-chefe (nome do documentário e minha música preferida), na verdade é uma resposta ao rock caricato do grupo que acabou morrendo em uma tragédia de avião. Aliás, também fiquei sabendo da irritação de Rodolfo com a música “Reggae do maneiro”, fútil, de fato, porém uma das mais divertidas canções do grupo.
Ali já era o início da transformação do vocalista. O que veio depois de “Só no Forevis”, o trabalho de quase um milhão de cópias vendidas com “Mulher de Fases” e “A Mais pedida” incomodou demais Rodolfo. Prestes a iniciar um processo de crise existencial com a fama e o excesso de exposição, ele começou a implicar com agendas como a ida a programas de auditório e participações em atrações como o Casseta & Planeta.
O documentário mostra as disputas de ego dentro do grupo, especialmente entre Rodolfo e Digão quando o assunto foram direitos autorais e rumos da banda. Também aborda o uso de drogas pelo vocalista e seu movimento de conversão religiosa. No início dos anos 2000, Rodolfo tornou-se evangélico, abandonou o Raimundos e passou vinte anos sem falar com os ex-companheiros. Só depois da pandemia voltou a se relacionar com Digão e Fred (Canisso acabou morrendo após um infarto). As imagens dos reencontros (ainda bem que alguém as fez) são bem emocionantes.
