Risco de ‘super el niño’ faz governo montar grupo de especialistas para monitorar eventos extremos
Encontros entre ministérios, institutos de pesquisa e universidades serão realizados para acompanhar o fenômeno climático. Governo também retomou sala de situação para incêndios florestais e ampliou o número de brigadistas.
Por Kellen Barreto, g1 — Brasília
Órgãos do governo federal e instituições de pesquisa vão passar a se reunir semanalmente para acompanhar os impactos do El Niño e coordenar ações de prevenção e resposta em todo o país.
Até o momento, representantes do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) realizaram três reuniões técnicas sobre o tema.
Os encontros subsidiam o planejamento das ações federais em articulação com estados, municípios, universidades e organizações da sociedade civil, para mitigar possíveis efeitos do El Niño no Brasil.
As reuniões, que antes ocorriam a cada 45 dias, serão intensificadas diante da previsão de agravamento dos impactos climáticos nos próximos meses. Segundo o governo, desde o início do ano vêm sendo estruturadas medidas integradas para reduzir os efeitos de eventos extremos associados ao fenômeno.
O governo também retomou a Sala de Situação sobre Incêndios Florestais, grupo que reúne 13 ministérios e nove autarquias federais para monitorar cenários críticos e definir respostas emergenciais durante períodos de maior risco.
El Niño no Brasil
Segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o El Niño “já está configurado” e seus efeitos começam a ser observados em diferentes partes do mundo. Países como Estados Unidos, Austrália e nações da Europa já registram impactos associados ao fenômeno, especialmente no aumento das temperaturas.
No Brasil, os reflexos tendem a aparecer de forma gradual e variam de acordo com cada região do país.
Sul
De acordo com o pesquisador, José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden: os primeiros impactos mais significativos na América do Sul devem ser sentidos durante a primavera. Na Região Sul do Brasil, a previsão é de aumento das chuvas, o que pode elevar o risco de enchentes, alagamentos e outros eventos associados a precipitações intensas.
O especialista ressalta, no entanto, que o fenômeno climático não é o único fator por trás dos desastres.
“Não é o El Niño que gera os desastres podemos ter talvez uma potencialização. Mas lembrar que o El Niño gera os extremos de chuvas. E o desastre é a combinação do extremo de chuvas com a falta de preparação da cidade para suportar esse volume de chuva”, exemplifica o pesquisador Marengo.
Norte e Nordeste
Nas regiões Norte e Nordeste, os efeitos costumam ocorrer em período diferente. A expectativa dos especialistas é que os impactos sejam mais perceptíveis durante o verão e o outono de 2027.
Ao contrário do que ocorre no Sul, a tendência nessas áreas é de redução das chuvas e aumento das temperaturas, cenário que pode favorecer períodos de seca, pressionar reservatórios e afetar atividades como a agricultura e o abastecimento de água em algumas localidades.
Apesar dos sinais já observados no Oceano Pacífico, especialistas afirmam que ainda é cedo para determinar a intensidade que o fenômeno terá no Brasil. Isso porque a classificação do El Niño depende, entre outros fatores, do nível de aquecimento das águas do Pacífico ao longo da primavera, período considerado decisivo para as projeções climáticas dos meses seguintes.
Contudo, os estudiosos observam com atenção os últimos episódios de El Niño registrados no Brasil, que foram marcados por eventos extremos, como enchentes, secas e ondas de calor. Para os especialistas, a intensidade dos impactos não depende apenas do fenômeno climático, mas também da capacidade de prevenção, monitoramento e resposta dos governos e das cidades.
Embora ainda não seja possível prever a intensidade do fenômeno, os últimos El Niño trouxeram consequências relevantes para o país. O principal fator para reduzir prejuízos não é apenas acompanhar a evolução do clima, mas fortalecer medidas de prevenção e preparar estados e municípios para responder a eventos extremos.
